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Nona Fineza de Jesus Sacramentado

Nona Fineza de Jesus Sacramentado para com os homens.


Jesus Se deixou Sacramentado para ser o mais humilde da terra.

 

Somente com lágrimas, e não com tinta, com suspiros, e não com palavras, se poderia discorrer sobre esta prodigiosa fineza de Jesus; porque verdadeiramente emudece a língua e faltam os conceitos para explicar as humilhações em que o amor pôs o Rei da Glória no Sacramento do Altar. Toda a vida de Jesus foi um contínuo exercício de humildade. Desde o Nascimento até o Sepulcro, não teve em vista outra coisa que humilhar-Se pelos homens. Nasceu humilde, viveu humílimo, e morreu mais abatido. Mas quando O considero Sacramentado, não posso deixar de cobrir o rosto de confusão, nem entender como resta ainda alguma raiz de soberba e vaidade no mundo.

Aonde podiam chegar as humilhações de meu Deus, além de esconder-Se debaixo de fragilíssimas espécies de um pouco de Pão? Em Sua Encarnação, encobriu Sua Divindade, porém Se deixou ver Homem, e o mais formoso dos filhos de Adão. N'Este Sacramento, esconde o Ser Divino e o humano, e não mostra mais que o ser do Pão. Infinita foi a aniquilação que Deus fez de Si mesmo, dizia o Apóstolo, quando Se uniu à natureza humana, que era vivente, racional e formada à Sua semelhança. Pois qual será o abatimento em unir-Se a uma natureza, não intelectual, senão insensível? Mas, que digo: a uma natureza? Nem a uma substância corpórea Se une, sacramentando-Se; pois, contente com os pobres acidentes, que não têm, pratica a maior humildade que podem conceber os entendimentos dos Serafins.

Ter reduzido Deus Sua Imensidão ao tenro corpinho de um Menino arrebata em êxtase quem contempla essa maravilha. Mas reduzir-Se Deus a um pequeno pedaço de pão, e a uma só gota de vinho, quem o poderá escrever sem lágrimas, ou o pensar sem que se lhe quebre de amor o coração? No mais limitado fragmento d'Aquela Hóstia está todo o inteiro Monarca do Empíreo. E mais: em qualquer mínimo ponto d'Ela, ou seja, dos que entre si unem suas partes, ou dos que chamamos terminativos de Sua quantidade, compendiou o Altíssimo toda Sua grandeza. Ah! Nabuco e Alexandre mundanos, como permanecem em pé vossas estátuas! Como não se desfazem em pó vossas soberbas? Como chora ainda vossa ambição ao ouvir que não há mais que um só mundo a ser conquistado? E o Deus de Majestade, o Criador de tudo, reduz-Se a viver e morar em um ponto indivisível por vosso amor.


Excedem as humilhações de Jesus Sacramentado a todas quantas as Sagradas Penas nos dizem que padeceu sobre a terra. Quando conversava com os homens, levava-os aos milhares após Si, atraídos e arrebatados pelos raios daquela Divindade que resplandecia em Sua carne mortal. E assim, sendo Menino, foi adorado pelos Reis em Belém, desfez a soberba máquina dos ídolos no Egito; e eram tão poderosos os influxos de Seus olhos que os próprios hebreus, que não O conheciam, convidavam uns aos outros para recrear sua vista, dizendo: Vamos ver o belíssimo Filho de Maria. Sendo Homem, tomou em Sua mão o latigo contra os culpados, se mostrou imperioso com os elementos, e formidável aos demônios; e ainda depois de morto Se eclipsou no Sol e cobriu o mundo de horrores.

Porém, que diferente se mostra agora Este mesmo Senhor Sacramentado. Já naquele Altar está tão manso e humilde Jesus, que, coberto dumas aparências de pão, não dá o mínimo sinal de vida. Todo humilhado e todo emudecido, nem de Seus sentidos exteriores Se serve. Tem os olhos vendados, fechados os ouvidos, presas as mãos, atados os pés, e só ardendo de amor Seu coração.

Ali está sujeito à vontade e arbítrio dos homens. Mas o que é isso, se também Seu amor O sujeitou aos brutos? Quantas vezes nos dizem as histórias que pisaram com seus pés as bestas Seu Divino Sacramentado Corpo? Ali também O vereis em poder dos elementos insensíveis, porque ou as chamas de fogo consomem as espécies de que Se veste Seu Corpo, ou as inundações das águas O arrebatam entre Suas correntes, ou a terra com seus tremores O encerram em suas entranhas, dentro de Seu Sacrário. Mas, ó Católicos meus! Ouvi o que é mais do que tudo. N'Este Augustíssimo Sacramento, pratica Jesus tão maravilhosos exemplos de humildade, que n'Ele Se fez sujeito até aos próprios demônios. Não uma só vez foram levadas as Sagradas Hóstias por ímpios feiticeiros a suas infernais assembleias, onde, juntamente com eles, em figuras corpóreas, foram vistos muitos malignos espíritos dançar e saltar sobre aquele adorável rosto, em torno do qual se rodeiam todos os céus.

Dizei-me, agora, soberbos e altivos do mundo, onde estão aqueles pontos de honra tantas vezes praticados diante d'Este próprio Deus Sacramentado? Ó cegueira digna de ser chorada com lágrimas de sangue! O Criador aos pés de uma criatura; e esta em Sua presença, em Sua própria Casa, ultraja-O a sangue e fogo sobre a precedência de um lugar, ou porque lhe negam um assento? Mas, ó Sacramento dulcíssimo, escola irrefragável da verdadeira humildade! Eu abraço teus ditames de todo opostos às falsas máximas do mundo. E, visto que desde a Cátedra deste Altar me ensinas o caminho real da vida eterna, eu me declaro perpétuo Discípulo de meu Jesus Sacramentado, Que em tão prodigiosas humilhações me dá a mais evidente prova de Seu amor. 
 
 

(Finezas de Jesus Sacramentado para con los hombres, e ingratitudes de los hombres para con Jesus Sacramentado. Escrito en Toscano, y Portugués por el P. F. Juan Joseph de S. Teresa Carmelita Descalzo. y traducido en castellano por D. Iñigo Rosende presbitero. Con licencia. Barcelona: En la Imprenta de los Herederos de Maria Angela Marti, Plaza de S. Jayme, año 1775.) 




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